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Por: Luiz Augusto Gollo
Data: 10/09/2005
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Túnel do tempo

O senhor com roupa e jeitão de aposentado pede à moça da padaria que troque a nota de dez por duas de cinco e sem que ela lhe pergunte coisa alguma explica:
- Tenho que dar a passagem da diarista, "sacumé", e se der dez reais, até ela voltar na semana que vem já era, me esqueci...
A caixa da padaria troca o dinheiro com insuspeita solicitude e ainda pergunta, como quem não quer nada:
- A dona Isaura melhorou do lumbago?
O aposentado dá uma resposta protocolar, ganha a rua e me deixa para trás pensando se, além do lumbago, o "cruzbúrbio" terá a capacidade de recuperar também o reumatismo, o emplastro Sabiá, o Biotônico Fontoura, o Ungüento de Picrato de Butesin, o Regulador Xavier para a saúde da mulher, excesso e escassez. "Simão, Simão, cadê minha loção?" perguntava o homem do reclame, enquanto o macaco corria com o vidro da loção capilar pela casa.
O Cruzeiro parece ter o "feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém" que me faz bem desde a Vila Isabel da infância esmaecida na memória, e, de repente, não estou na padaria, mas sim na venda do Seu Zé, o português jovem e bem humorado, a ensinar à criançada que, como eu, ia comprar três cruzeiros de toucinho de fumeiro ou uma boneca de anil na sua venda:
- Uma vírgula pode mudar completamente o sentido da frase. Uma coisa é perguntar "o cachorro é teu, irmão?" e outra, bem diferente, é dizer, sem a vírgula, "o cachorro é teu irmão". Rá, rá, rá!
O Cruzeiro é um encrave carioca no tempo e no espaço, um bairro entre o Estácio e o Méier na década de 50, onde desconhecidos se cumprimentam na rua e vizinho se apresenta e acrescenta "ao seu dispor". É uma reserva ambiental em meio a mensalões, mensalinhos e outros desalinhos; acho mesmo que aqui ainda se tem medo de vento encanado, manga com leite e cola-se com cuspe um pedacinho de papel na testa de criança para curar soluço. As horas se arrastam como antigamente, meninos jogam bola na tarde, casais adolescentes se beijam na pracinha, os sábados são especiais como no poema do Vinícius e, às vezes, tenho a impressão de ouvir alguém comemorar, eufórico, um gol do Brasil na copa da Suécia.

 
Luiz Augusto Gollo acha que perdeu o relógio de pulso na mudança.
   

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