| Falando nisso...
Qual é a coisa que mais te chateia? perguntou alguém na mesa do Beirute, no momento em que a bola laranja se escondia atrás dos prédios e a noite tingia o céu em cima das embaixadas. Como assim? Chateia como? Que tipo de coisa? Vôo atrasado, pneu furado, fila no supermercado - aliás, fila em geral...tanta miudeza tem a terrível capacidade de chatear, aborrecer, "estragar o dia", como dizem os pessimistas e fatalistas. Por exemplo, você sai de manhã pro trabalho, amiga leitora, toda arrumada, banho tomado, o maior cuidado com o cabelo feito ontem no salão à base de sacrifício e grana, e antes mesmo de entrar no carro um passarinho qualquer solta um barro bem no meio da sua cabeça. Qualquer não, um pombo grande de olhar sonso e dissimulado. Não é de matar de ódio?
E molho de macarrão na gravata nova, que você, caro amigo, está estreando hoje, pura seda, italiana legítima, presente do chefe? E ele vai perguntar por ela, com certeza, mas a mancha a terá inutilizado, a terá transformado num pedaço de pano nobre porém inútil.
Ou que tal dar um jeito no pescoço quando você está dirigindo? Vai passar o resto do dia, talvez mais, de cara virada, olhando de lado, dando a impressão de que se acha muito superior, quando na verdade está é com raiva do mundo.
Conforme as idiossincrasias pessoais (com o perdão do pleonasmo), os presentes à mesa discorreram sobre pequenos incidentes cotidianos, até que alguém partiu para comportamentos desagradáveis e a conversa degringolou, tomou ar daqueles passatempos sociais tipo "jogo da verdade".
No embalo da cerveja, do uísque e da caipirosca vieram à superfície os piores defeitos do comportamento humano sem que, no entanto, alguém vestisse a carapuça, o que salvou a noite. Mas um lembrou o jeitão do Jefferson mentir como se dissesse verdades absolutas; outro falou da mania do Delcídio com santinhos, santos e santarrões; alguém mais citou o ar blasé do Delúbio como um dos piores defeitos da personalidade; até duvidaram da cara de traído do Lula na televisão - enfim, foi um desfile de menções mais ou menos desairosas, até que retomei o fio da meada:
- Pra mim, não tem nada mais chato do que vir ao Beirute pra falar de política.
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